Este conto é uma obra de ficção. Os personagens e diálogos foram criados a partir da imaginação do autor e não são baseados em fatos reais. Qualquer semelhança com acontecimentos ou pessoas, vivas ou mortas é mera coincidência.
Estava olhando janela á fora, o amanhecer límpido, o riacho vivendo, as flores, o céu, Simplesmente respirando a calmaria do inverno, tomando uma xícara de café com leite, tentando recordar do sonho que tivera, o mesmo sonho á três dias.
Rodrigo acordara suando, suas mãos roxas de baterem na mesinha de cabeceira, as roupas de cama amontoadas pelo chão.
Não era de praxe que ele se impressionasse por algo ou alguém. Na verdade tornou-se cético e apático, após anos de luto pela perda da sua mulher, Valentina.
Tudo era vazio e desconectado, tudo era tempo que demorava á passar.
O câncer fez de sua mulher uma marionete e dele, o pior dos enfermos.
O suicídio era a opção, para aquele que estava num emaranhado de sombras, sem qualquer capacidade de mudança, e por muitas vezes pensara em cometê-lo.Mas ela jamais gostaria de vê-lo ferindo-se por sua causa, então descartou essa opção, mesmo acreditando, na época que eles poderiam se ver novamente, em outra vida.
Não vivia, não amava, as coisas passavam e ele só sobrevivia.
Nada estava lhe preenchendo, nada estava lhe dando prazer ou lhe dando esperança, até que essas noites quentes, de um sonho invisível o perturbavam.
A atitude precisava ser tomada, tinha que talvez, pela primeira vez, desde seu luto reagir.
Deixou de acreditar em muitas coisas desde então, porém no que acreditava, Valentina estava na sua crença.
Fez a cama de casal, com os lençóis da ultima noite de amor que tiveram, colocara ‘’Let it be’’, a música favorita de Valentina, colocou o chocolate quente na xícara que ganhara, no seu aniversário e o CD com a coleção de fotos dela, na Tv.
Sessão organizada, tudo pronto para a empreitada.
Estava vendo-a dançar, a cigana que o conduzia, seduzia e enlouquecia, aquela dos olhos perpétuos, da voz rebelde e convicta. Estava á um passo de tocá-la para ver se era de verdade, mas estava impossibilitado de fazer qualquer movimento, se não acompanhar seus passos com o olhar.
-Está com medo de acreditar, e eu sinto muito. -Dizia a cigana do sorriso terno, ao passar a mão, por seu rosto e por seu cabelo desgrenhado.
-Eu sinto sua falta, porque não posso ficar?Nada existe pra mim lá fora, tudo o que eu quero está aqui. - Ele tentava não deixar sua angústia transparecer, mas a vontade era tanta que essa angústia era simplesmente colocada pra fora, como um alimento que não faz bem.
-Sabe que não pode ficar, não se lembrará disso quando acordar.
-Eu quero me lembrar, não quero perdê-la, por tantas e tantas noites, como na outra vez.
-Você pode escolher: quer me ver em seus sonhos, mesmo não se recordando depois, ou quer recordar e não tê-los nunca mais.
-Porque você é dura comigo, se eu só soube te amar, e ainda amo mais do que minha vida e você sabe.
-Eu sei, meu amor. Mas não posso permitir que isso aconteça, você pertence ao outro lado, eu pertenço a este, portanto vamos deixar como estar, somente aproveitar.
Ela deitara em seu colo, ao falar e se levantara para mostrar mais uma vez o quanto estaria pronta para poderem viver eternamente, na hora certa, quando não tivesse nenhum fio tênue, dividindo esse amor.
Dançaram, brincavam, brindavam, amavam até o amanhecer. As estrelas logo se afastaram, o sol começara a nascer.
Deitados ao pé do riacho, namoravam como na primeira vez, como crianças descobrindo a paixão.
-Anda logo-Puxava-o pela mão, levando ao bosque, com sua camisola branca, suja e rasgada, voando com o vento forte. - Você não muda.
-Ahh, mas eu pego você. -Corria e corria, feliz por aquele tempo, sem sentido, mas com um único destino.
Rodrigo levantou num salto, entornou o chocolate, e pausou o CD. Tudo tinha sido em vão, pensara ele. Nada se lembrava, nada.
A foto pausada era de sua Valentina, correndo pelo bosque, selvagem e linda, dispersa e inocente.
A primavera de ventos imortalizados, dos sonhos proibidos e encantados, a cigana de cabelos negros e coração entregado, de promessas e surpresas, de loucuras e tranqüilidades, de fascinações e ilusões, a moça d’alma ou a alma da moça, ou a moça dele, do sorriso dele que invadia e permitia, que amava de todas as formas, de todas as vidas.
Fim

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